high maintenance
o tesão de cinco gretchens e três anittas que habita em mim só sobrevive do que é real.
“os likes em stories mataram o flerte direto”, decreto em tom conclusivo. pauta de parte da minha última sessão de análise das terças-feiras. os envios de reels na DM aumentam distâncias entre pessoas queridas; a falsa sensação de proximidade porque o envio de um vídeo vertical de até 90 segundos lembra algo daquele amigo, primo, colega. deveria aproximar? me afasta. pouco me interessam as briófitas e pteridófitas que compõem a ganja, que um antigo romance me envia no automático; sem aviso. peguei ranço com o tanto de tempo disponível pra gastar numa interação tão pífia e egóica. não esboço nem meio sorriso com o humor de parentes que não vejo há mais de ano. esse tanto de coraçãozinho amontoado para significar ‘gostei’ diz o quê? um linguajar digital que faço questão de não entender. a vida sem movimento e perigo, pra mim, não tem lá muito sentido.
pra além disso: não deveria, mas no meu entorno, quase ninguém sabe mais o que é sexo regular. tirando os apaixonados recentes, os casais (mais ou menos) estáveis, os confortavelmente casados e solteiros - ninguém mais transa. um trabaaalho instalar um app, escolher fotos boas suas, selecionar perguntas para iniciar conversas mecânicas que quase nunca dão em algo substancial. emprego já se busca das 9h-18h, no umbral da internet que chamam linkedin. a lei do mínimo esforço possível está em voga, e ai de quem arrisca uma mensagem direta pra uma simples trepada. mesmo em locais ditos libidinosos, aka. bares & festas, a sedução que vence é cada um em seu celular, checando métricas e o tenebroso whatsapp. é doido quem ainda curte uma ligação furtiva ou trocas de áudios longos, com detalhes peculiares, divagações e… intimidade. o tesão de cinco gretchens e três anittas que habita em mim só sobrevive do que é real.
aceitei essa fatia sexualmente inerte da minha existência como um teste do quanto aguento o tédio enquanto visitante. organizo meu guarda-roupa, inevitavelmente caótico. tiro cochilos de conchinha com o gato mais novo. rodo o mubi atrás de algo inédito por aqui. tento ser mais atenta e amigável com o que restou das plantas pelo apartamento. evito me enfiar em bandeiras vermelhas ambulantes, muitas das quais, num pretérito não tão distante, me fiz daltônica; pela lata atraente, para o currículo, ‘tô fazendo nada mesmo’. até me dar conta de que tudo que estava destinado a mim me encontrou. inúmeras vezes capenga, raramente prontíssima. mas, em todas elas, tranquila. surpreendentemente calma. pacífica. meus melhores matches foram fruto do tinder ao vivo, à moda antiga; tenho-alguém-que-faz-seu-tipo. cupidos modernos, ou, amigos em comum.
“é que você é high maintenance”, ouvi de uma amiga dia desses. “porque também sei do tanto que ofereço”, respondi naturalmente à altura. dou trabalho na mesma medida em que ofereço o mundo. minha feição séria demora a derreter corações, o meu próprio. só entro na frequência de quem também mergulha nas profundezas, e sabe nadar até outra ilha. juntos? se possível, melhor ainda. conversas com semi-conhecidos em eventos sociais me drenam, enquanto detalhes íntimos, com quem quer que seja, me calibram para a vida. pavor do termo ‘intensa’ para me definir, mas entendo que tal qual uma onça, bicho do mato, juma marruá - me esgueiro, observo, avalio a segurança do território, e só aí deito & rolo de barriga pra cima. me torno dócil. até demais. minha analista e eu andamos feito detetives vasculhando minha infância, numa primeira olhada cristalina, atrás do poço de tamanha inocência. uma vez mansa, possivelmente sua - insira aqui o que preferir.estive fora da vitrine humana em que reels são milimetricamente pensados e fotos sem edição já não existem mais em feed algum por dois longos períodos. sim, trabalho com conteúdo e estratégia para marcas. dentro da bolha do meu perfil backup, local seguro em que postava apenas referências, minhas favoritas de fotógrafos underground e artistas que amo, composições de teste no feed, o teatral se mantinha a uma distância segura. somos todos performáticos em alguma instância, desde o chefe que religiosamente se conecta às 8h da manhã até o amontoado de alimentação saudável pesada e regrada que um grande amigo evangeliza diariamente. a diferença é que nem todas são documentadas no digital, expostas e vendidas como capital sensual de cada um deles.
é perigoso o refresh de quem vamos nos tornando aos poucos. viramos caricaturas de nossas personas digitais, escravos de nossos superegos, versões desatualizadas que a família como espetáculo não pode reaprender a conhecer. personagens bem arquitetados de um filme indie que ninguém aguentaria assistir até o final. gente que chega ao encontro munida de uma persona milimetricamente editada, estéril de qualquer risco, vacinada contra o afeto e exausta do próprio espetáculo de cópias ambulantes. curtante. conversante. ficante. eu lá quero saber desses termos contemporâneos caídos; me agrada a caça. quero a troca de olhares lascivos num balcão, amizades de mesa ao lado no bar que atravessam o follow mútuo. descobrir novos traumas de infância, e surpreender com os meus. quem ainda se digna a parecer um pouco ridículo nas trocas humanas em busca de conexão por aí? nenhum olho no olho, nenhum conhecer o mapa do corpo alheio como arqueóloga daquele vilarejo vai me convencer a apostar no casual pelo casual.

o que cansa mesmo é a exaustão coletiva pela busca de troca genuína quando, na real, pegamos nossas trenas e avaliamos cada pedacinho do outro; que, na maioria esmagadora das vezes, sequer chegamos a conhecer em carne e osso. o fordismo dos likes. o botãozinho de envio safado e facilmente clicável para dizer um ‘oi’ através da maneira mais pífia possível. foguinho, reação de risada, emoji de coração enorme preto. nisso, definho aos poucos emocionalmente nesse zoo online no qual ninguém se aproxima demais da fera. seja pela manutenção caríssima que exijo com o olhar penetrante, a vulnerabilidade à mostra, o rosnar assustador diante do que me desagrada. seja pela possível exposição em texto, caso tudo dê errado, dê em nada e sirva como enredo para entreter e provocar o ‘grande público’. seja pela frustração em massa porque, poxa, a internet parecia o futuro e no fim das contas não tem sido lá tudo isso. o recado foi dado, você não viu no meu story?




eu leio a primeira frase e já dou like pq não tem como não gostar hahahaha
Durante muito tempo acompanhei seus textos naquilo que chamávamos blogesfera. Foi lindo demais te reencontrar por aqui e continuar me identificando com os textos. Sucesso, Cami 🫶🏻