rituais
nunca foi tão sexy ser consistente.
segunda-feira, 6h35
mais cinco minutinhos, seto o alarme. cochilo breve. engulo o regulador de tireoide com pouca água, ainda na penumbra do quarto. digo aos gatos: ok, já vai, JÁ VAI. pulo da cama pra evitar minha própria mente em looping. chapéu em casa para baixar a franja. água no rosto, gargarejo, hidratante. que personagem quero vestir pra encarar a semana: chefe sensual? camponesa contemporânea? tomboy com contraste de microssaias e shorts? nascida para amar café da manhã, forçada a fazer pelo menos meia hora de jejum.
terça-feira, 18h50
um último check nas mensagens pendentes. calibro a garrafa de água. reviso e-mails e fecho o computador de trabalho. abro a torneira do banheiro; chorão, o mais novo, me encara paralisado. “água?” me acomodo na cadeira, aguardo o ‘oi’ seco, seguido do link com a sala do meet. nada de especial para a sessão de hoje. o surto do fim de domingo? perspectivas profissionais? minha falta de ânimo social? repasso meu corretivo e retoco o lip tint nos lábios; batidinhas para espalhar. se não me sinto bonita, não consigo me concentrar nas garatujas dos meus pensamentos.
quarta-feira, 8h45
presencial. av. paulista x consolação. escritório novo. como é bom poder usar macacão em paz novamente.
quinta-feira, 20h15
venci: o bloqueio da malhação noturna. detesto um dos colegas da academia que passa o treino todo me fitando pelos ângulos do espelho; feio demais. no meu imaginário, passo por ele gravando um áudio para uma amiga, narrando a pachorra de um feioso a uma distância em que ele escute. não é possível que eu seja a única disposta a perder o réu primário entre uma série de elevação lateral e outra - 4kg de cada lado!
30 min de bicicleta na elevação 6 = 180kcal. pra hoje, ok.
sexta-feira, 23h
me despeço e saio à francesa. detesto os milhares de tchaus obrigatórios e abraços e ‘fica um pouco mais!’ a que nunca sei dizer não. aprimorei tal habilidade a um nível em que desapareço enquanto todos riem de piadas ruins ou pegam novos drinques. preciso tirar a maquiagem assim que pisar em casa. preciso limpar a caixa dos gatos e dar um sachê, em troca da solidão de toda uma noite. preciso dormir cedo; prioridades de amanhã: descansar o máximo possível de horas, malhar glúteos, passar na floricultura e na costureira. depois, o dia é meu.
sábado, 13h50
deixo a nestor pestana apressada. atrasada para encontrar w. pra variar. me enrolei escolhendo uma foto boa pós-cardio. ducha corrida. nem ideia do que vestir. interfone! w. chega, festa dos bichos. faminto, me diz. “cafezinho, dona helena?”. enfio um vestido tubinho que foi da minha mãe, meia-calça e botas pretas. casaco? frio lá fora? “leva, amiga”. vamos no africano? e depois a pé até uma galeria de arte. e depois na casa do norte luizão. e, opa, pechamos amigos queridos. e volto pra casa sem nem saber que horas. audácia - ainda bebo uma heineken remanescente da geladeira.
domingo, 9h30
22 graus, diz na previsão do tempo do celular. ou seja, 25 no terraço. ressaca leve. sem puran T4 hoje; foda-se. tomo depois. biquíni novo. fruta, café, água, computador, livro, caneta, caderninho. enfio tudo na bolsa de palha. boné da arisco. a JBL não carregou o suficiente. levo ainda assim. bom dia! eu & os mesmos três idosos, algumas cuidadoras. releitura de rosa montero. bob marley - pimper’s paradise. every need got an ego to feed.
vitaminas. fio dental. treinos A, B e C. alimentação limpa e pouco álcool. medo de saturno, bem sentado em cima do meu signo solar? talvez. prefiro chamar de instinto. eu, que nasci especialista em inícios, inimiga do previsível, alma de artista que sobrevive em meio a planilhas: nunca foi tão sexy ser consistente.




muito bom, consistência é vida!
cada vez melhor te ler, amiga.